O Que É Ser Mãe? Entenda a Transformação da Identidade Materna
Saúde Mental

O Que É Ser Mãe? Entenda a Transformação da Identidade Materna

Tornar-se mãe é muito mais do que um evento biológico: é uma reconstrução de identidade que tem nome e explicação na psicologia. Neste artigo, você entende o que muda na sua cabeça e na sua rotina ao virar mãe, por que a ambivalência entre amor e cansaço é normal, e quando faz sentido buscar apoio psicológico nessa fase.

12 de julho de 2026
7 min de leitura
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Talvez você já tenha se pego pensando: "quem eu era antes de tudo isso?". Essa pergunta é mais comum do que parece, e não significa que algo deu errado com você. Ao se tornar mãe, muitas mulheres passam por uma reorganização profunda de quem são, de como se enxergam e de como se relacionam com o mundo ao redor. Entender esse processo, e saber que ele tem nome e explicação dentro da psicologia, já ajuda a atravessá-lo com menos culpa e mais acolhimento.

Essa transição está diretamente ligada à saúde emocional da gestação e do pós-parto, tema que já exploramos com mais profundidade no artigo sobre acompanhamento psicológico na gravidez. Aqui, o foco é outro: entender o que muda na identidade da mulher quando ela se torna mãe, e por que isso pode gerar, ao mesmo tempo, sentimentos de plenitude e de estranhamento.

O que é a identidade materna?

A identidade materna é o conjunto de mudanças psicológicas pelas quais uma mulher passa ao assumir o papel de mãe: como ela se vê, como reorganiza seus valores e como passa a se relacionar consigo mesma e com quem está ao seu redor. Não se trata de um interruptor que liga no momento do parto, mas de um processo que começa ainda na gestação e continua se desenvolvendo depois que o bebê nasce.

Pesquisas da área de psicologia perinatal mostram que essa construção começa ainda durante a gravidez, quando a mulher passa a imaginar mentalmente como será "ser mãe". Depois do parto, essa identidade continua se aprofundando, à medida que ela aprende na prática a cuidar do bebê e se adapta ao novo papel, num processo gradual, não instantâneo.

O pesquisador Daniel Stern (1997) resume de forma direta algo que muitas mães sentem na pele: o nascimento do bebê corresponde, ao mesmo tempo, ao nascimento de uma mãe. Ou seja, a mulher também está em formação nesse momento, ela não "já nasce sabendo".

Vale ressaltar que essa transformação não é instintiva nem automática. Estudiosos da maternidade apontam que o amor materno não é um instinto dado de forma pronta, mas um comportamento que se constrói, influenciado por contexto histórico, cultural e pessoal. Isso ajuda a explicar por que a experiência de "ser mãe" é tão diferente de mulher para mulher, mesmo dentro da mesma família.

O que é matrescência e por que esse termo importa?

Matrescência é o termo usado para descrever a transição de se tornar mãe como um processo de desenvolvimento, comparável em intensidade à adolescência. O conceito foi criado pela antropóloga médica Dana Raphael em 1973, ao observar que essa passagem envolve mudanças que se sobrepõem, entre elas:

  • mudanças hormonais, que afetam sono, humor e energia;
  • mudanças corporais, que alteram a relação da mulher com sua própria imagem;
  • mudanças sociais, na forma como a mulher é vista e tratada por quem está ao redor;
  • mudanças identitárias, na maneira como ela define quem é, para além do papel de mãe.

Assim como na adolescência, na matrescência o humor oscila, a identidade é renegociada e as relações significativas (com o parceiro, com a família, com amigos) também se transformam. A diferença é que, enquanto a adolescência é amplamente reconhecida e até romantizada culturalmente, a matrescência ainda é pouco falada, o que faz muitas mulheres acharem que estão sozinhas nessa experiência.

Ter um nome para esse processo cumpre uma função importante: tira a experiência do campo do "problema individual" e a coloca no campo do desenvolvimento humano esperado. Não é fraqueza nem falha de caráter, é uma fase de transição legítima, que pode, e muitas vezes deve, ser acompanhada com apoio.

Uma mãe segurando seu bebê com expressão complexa: amor profundo misturado com cansaço, mostrando que esses sentimentos coexistem sem se contradizerem.

É normal sentir ambivalência ao se tornar mãe?

Sim, é normal, e é mais comum do que o silêncio em torno do tema sugere. Sentir amor profundo pelo bebê e, ao mesmo tempo, cansaço, dúvida ou até um certo estranhamento em relação à nova rotina não são sentimentos contraditórios: eles coexistem na maioria das experiências reais de maternidade.

Um estudo qualitativo publicado na revista científica Vínculo (Emidio et al., 2023) entrevistou mulheres que reorganizaram suas vidas em torno da maternidade e identificou um padrão recorrente: dificuldade em falar sobre os aspectos difíceis da experiência sem sentir culpa, seguida de uma tendência a corrigir qualquer fala negativa com uma fala positiva logo em seguida. Segundo o estudo, isso está ligado a um ideal social de "mãe perfeita", que dificulta o reconhecimento de que a maternidade real é feita de ambivalências.

Essa dificuldade em admitir os aspectos difíceis tem origem cultural, não pessoal. Durante muito tempo, a maternidade foi apresentada socialmente como uma experiência que deveria ser vivida com gratidão constante, sem espaço para frustração. Quando a mulher sente algo diferente disso, é comum que surja a culpa, como se cansaço ou dúvida fossem sinal de que ela não é "boa o suficiente".

Reconhecer a ambivalência como parte esperada do processo, e não como uma falha pessoal, é um dos primeiros passos para atravessar essa fase com menos sofrimento.

Quais mudanças acontecem na transição para a maternidade?

Mudanças emocionais e corporais

A gestação e o pós-parto envolvem mudanças hormonais amplas, que afetam sono, humor e energia. Psicanalistas descrevem esse período inicial como uma fase de dedicação quase exclusiva da mãe ao bebê, natural nas primeiras semanas, que tende a se equilibrar com o tempo.

Além das mudanças de humor, o próprio corpo muda, e a relação da mulher com sua imagem corporal também costuma passar por ajustes. Isso não é vaidade nem futilidade: faz parte da reorganização geral de identidade que a maternidade provoca.

Mudanças na rotina e nos relacionamentos

Também mudam as prioridades diárias, o tempo disponível para si mesma e a dinâmica dos relacionamentos, com o parceiro, com a família de origem e com amigos. Muitas mulheres relatam sentir que precisam "renegociar" seu lugar em cada uma dessas relações, o que é esperado e, em geral, gradual.

Abordagens humanistas da psicologia entendem esse momento como uma reorganização daquilo que a pessoa considera ser o seu "eu". Quando essa reorganização acontece em um ambiente de apoio, empatia e aceitação, ela tende a ser vivida de forma mais saudável. Quando falta apoio, o processo pode gerar mais sofrimento emocional.

Quando buscar apoio psicológico nessa fase?

Não é preciso estar em crise para buscar apoio psicológico durante a transição para a maternidade. Alguns sinais costumam indicar que vale a pena conversar com um profissional:

  • tristeza ou irritabilidade que não diminuem com o passar das semanas;
  • sensação de isolamento, mesmo cercada de pessoas;
  • dificuldade persistente para se adaptar à nova rotina;
  • sensação de estar "perdida" em relação a quem se é agora.

Buscar ajuda nesse momento não é sinal de fragilidade, é uma forma de cuidado preventivo, da mesma maneira que se cuida do corpo durante a gestação. Na Lumus Terapia, é possível encontrar um psicólogo especializado em gravidez e puerpério, que pode ajudar a nomear e organizar tudo o que muda nessa fase, respeitando o ritmo de cada mulher.

Se você ainda não sabe exatamente por onde começar, também é possível encontrar um psicólogo para conversar sobre qualquer etapa dessa transição, mesmo que falte clareza sobre como colocar em palavras o que está sentindo.

Ser mãe não apaga quem você era antes. É, antes de tudo, um processo de expansão de identidade, com espaço para dúvida, para cansaço e para amor, tudo ao mesmo tempo. Dar nome a essa experiência, e buscar apoio quando for preciso, é um passo importante para atravessá-la com mais leveza.

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Perguntas Frequentes

É normal não sentir um amor instantâneo pelo bebê logo após o parto?+

Sim. O vínculo entre mãe e bebê muitas vezes se constrói aos poucos, e não em um único instante mágico. Sentir estranhamento, cansaço ou até indiferença nos primeiros dias não significa falha afetiva; é parte do processo gradual de adaptação que compõe a identidade materna.

Terapia online ajuda a lidar com as mudanças de identidade na maternidade?+

Sim. A terapia online permite conversar sobre as mudanças emocionais da maternidade sem sair de casa, o que facilita a rotina de quem tem um bebê pequeno. O acompanhamento psicológico ajuda a nomear sentimentos, organizar a rotina e fortalecer o vínculo com o bebê, respeitando o tempo de cada mulher.

Sentir saudade da vida antes de ser mãe significa que a mulher não ama o filho?+

Não. Sentir falta da rotina, da liberdade ou da identidade anterior é comum e não indica falta de amor pelo filho. Esse sentimento faz parte do luto natural por uma fase de vida que se transforma, e pode coexistir, tranquilamente, com o amor materno mais genuíno.

Sobre o autor

ELT

Equipe Lumus Terapia

Conteúdo criado pela equipe de especialistas da Lumus Terapia.

Orientação ética: Psic. Deise Dourado, CRP 07/40918

Referências

  1. Idealização da maternidade e herança psíquica: reflexões no contemporáneo. Acessar
  2. FONTINELLI, A. C. M. et al. Tornar-Se Mãe: A Construção da Identidade Materna Sob a Perspectiva da Psicologia Humanista. Revista Tópicos, Rio de Janeiro, v. 4, n. 33, p. 1-15, 2026. ISSN: 2965-6672.. Acessar

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