
Os Sonhos Possuem Significado?
Dos templos do Egito Antigo aos arquétipos de Jung, passando pelo jogo do bicho, a humanidade nunca parou de tentar decifrar os sonhos. Este artigo passeia por essas curiosidades históricas e culturais e mostra o que, afinal, a ciência tem a dizer sobre o assunto.
Quem nunca acordou pensando "que sonho estranho foi aquele" e passou o dia tentando entender o que ele quis dizer? Essa curiosidade não é nova. Muito antes de existir qualquer ciência do sono, os sonhos já fascinavam a humanidade, sendo lidos como mensagens divinas, sinais do destino ou pistas sobre o futuro. Neste texto, vamos passear por essa história, entender por que Carl Jung achava alguns sonhos tão universais, olhar de perto algumas crenças populares brasileiras e ver, por fim, o que a ciência atual pensa sobre tudo isso. E já que estamos falando de sonhos, vale lembrar que uma boa noite de sono é a base de tudo o que acontece na nossa mente durante a noite.
Afinal, sonhar com alguma coisa quer dizer algo?
A resposta curta é: depende do tipo de significado que você procura. Não existe um dicionário de símbolos com validade científica comprovada, do tipo "sonhar com X sempre significa Y para todo mundo". Mas existe, sim, muito material rico para explorar: a história mostra como diferentes culturas deram sentido aos sonhos, a psicanálise construiu teorias interessantes sobre seus símbolos, e a neurociência vem descobrindo o que acontece no cérebro enquanto sonhamos. São camadas diferentes de uma mesma pergunta, e vale a pena conhecer cada uma delas.
O que os egípcios e gregos antigos achavam dos sonhos
No Egito Antigo, os sonhos eram levados tão a sério que existiam templos dedicados só a isso. As pessoas dormiam nesses espaços sagrados esperando receber mensagens dos deuses, em rituais conhecidos como incubação onírica. Um dos registros mais curiosos que sobreviveram até hoje é o Papiro Chester Beatty III, datado de cerca de 1200 a.C., considerado um dos primeiros "livros dos sonhos" da história, listando sonhos e classificando-os como bons ou maus presságios.
Na Grécia Antiga, o templo de Asclépio, deus da medicina, em Epidauro, recebia pessoas doentes que dormiam ali esperando que o próprio deus aparecesse em sonho para indicar um tratamento. Mais tarde, o grego Artemidoro de Daldis sistematizou boa parte desse conhecimento popular em uma obra chamada Oneirocritica, um dos primeiros tratados dedicados exclusivamente à interpretação dos sonhos. Até mesmo na tradição bíblica, sonhos aparecem repetidamente como mensagens importantes, como no caso de José, que interpreta o sonho do faraó no Egito.
Vale reforçar que tudo isso é curiosidade histórica e cultural, não evidência científica. Mas mostra algo bonito: a busca por sentido nos sonhos é praticamente tão antiga quanto a própria humanidade.
Os arquétipos de Jung: por que alguns sonhos parecem tão universais?
Foi só no início do século XX que a psicanálise tentou explicar os sonhos de um jeito mais estruturado. Carl Jung, que começou como discípulo de Freud e depois desenvolveu sua própria linha de pensamento, defendia que certos sonhos e símbolos se repetem em pessoas de culturas completamente diferentes, sem que elas tenham qualquer contato entre si. Para explicar isso, ele propôs a ideia de um inconsciente coletivo, uma camada da mente compartilhada por toda a humanidade, povoada por imagens que chamou de arquétipos.
Alguns dos arquétipos mais conhecidos da teoria de Jung incluem a Sombra (os aspectos de nós mesmos que preferimos não encarar), o Velho Sábio e a Grande Mãe. É essa teoria que ajuda a explicar, por exemplo, por que tanta gente ao redor do mundo sonha com situações parecidas: cair no vazio, ser perseguido, voar ou até perder os dentes. Na leitura de Jung, esses não seriam sonhos aleatórios, mas imagens simbólicas profundamente enraizadas na experiência humana.
Importante lembrar que essa é a teoria de um autor específico, formulada há mais de cem anos, e deve ser vista como uma lente interpretativa (usada até hoje em algumas abordagens terapêuticas), não como um fato comprovado sobre o funcionamento do cérebro.
E Freud, o que ele achava?
Freud tinha uma visão diferente da de Jung. Para ele, os sonhos eram realizações disfarçadas de desejos que a mente consciente rejeitava, e cada símbolo tinha um significado pessoal, ligado à história única de quem sonhava, e não a um repertório universal. Ou seja, onde Jung via símbolos compartilhados por toda a humanidade, Freud via a marca individual de cada pessoa.
E as crendices populares, como o jogo do bicho?
No Brasil, existe uma tradição cultural antiga de associar sonhos a números, principalmente ligada ao jogo do bicho, prática que existe desde o fim do século XIX. Muita gente cresceu ouvindo que sonhar com determinado animal ou situação "quer dizer" um número específico, e esses "livros de sonhos" populares circulam até hoje.
Vale um adendo importante aqui: isso faz parte do imaginário popular brasileiro e é uma curiosidade cultural genuína, mas não tem nenhuma comprovação científica de que sonhar com algo realmente preveja números, sorte ou qualquer resultado futuro. O interessante não é acreditar literalmente nisso, mas perceber como essa tradição repete, séculos depois, o mesmo impulso dos antigos egípcios e gregos: transformar o sonho em um sinal para se agarrar.
O que a ciência diz hoje sobre por que sonhamos?
A neurociência moderna já sabe que a maior parte dos sonhos acontece durante o sono REM, fase em que o cérebro processa memórias e emoções do dia. Uma das hipóteses mais conhecidas é a do pesquisador finlandês Antti Revonsuo, que em 2000 sugeriu que os sonhos (principalmente os mais angustiantes) funcionariam como uma espécie de treino, ajudando o cérebro a reconhecer e reagir a situações de perigo.
Um nome brasileiro vale a pena conhecer aqui: o neurocientista Sidarta Ribeiro, do Instituto do Cérebro da UFRN, dedicou anos de pesquisa ao tema e reuniu história, antropologia e neurociência no livro "O Oráculo da Noite". Uma das ideias centrais do seu trabalho é que ciência e crenças ancestrais sobre os sonhos não estão tão distantes quanto parecem, ambas nascem da mesma pergunta que a humanidade nunca parou de fazer: o que os sonhos querem nos dizer sobre nós mesmos?
Vale a pena prestar atenção nos meus sonhos?
Sim, mas talvez não do jeito que um dicionário de sonhos sugere. Refletir sobre os próprios sonhos pode ser um caminho interessante de autoconhecimento, especialmente dentro de um processo terapêutico. Em abordagens como a psicanálise, o sonho costuma ser trabalhado como material simbólico ligado à história pessoal de cada paciente, e não como um código genérico igual para todo mundo.
Se você sente curiosidade sobre o que seus sonhos podem estar comunicando, ou se pesadelos frequentes têm atrapalhado seu sono e seu bem-estar, encontre um psicólogo para conversar sobre isso com calma.
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Perguntas Frequentes
Os símbolos dos sonhos de Jung têm comprovação científica?+
Não da forma como Jung propôs. A teoria dos arquétipos e do inconsciente coletivo é uma construção teórica do início do século XX, usada até hoje em algumas abordagens terapêuticas como ferramenta de reflexão simbólica, mas não é um mecanismo comprovado pela neurociência moderna.
Por que tanta gente sonha com quedas ou perseguições?+
Uma hipótese aceita na neurociência sugere que sonhos angustiantes funcionariam como um treino do cérebro para reconhecer e reagir a situações de perigo. Já a psicanálise oferece outras leituras simbólicas para esse mesmo tipo de sonho recorrente.
Sonhar com algo pode realmente prever o futuro?+
Não existe comprovação científica de que sonhos prevejam eventos futuros ou resultados específicos. Crenças populares como essa fazem parte do imaginário cultural de muitos países, incluindo o Brasil, mas devem ser vistas como curiosidade, não como previsão confiável.
Sobre o autor
Equipe Lumus Terapia
Conteúdo criado pela equipe de especialistas da Lumus Terapia.
Orientação ética: Psic. Deise Dourado, CRP 07/40918
Referências
- Revonsuo, A. (2000). The reinterpretation of dreams: An evolutionary hypothesis of the function of dreaming. Behavioral and Brain Sciences, 23(6), 877-901.
- Ribeiro, S. (2019). O Oráculo da Noite: A História e a Ciência do Sonho. Companhia das Letras.
- Papiro Chester Beatty III e tradição do Oneirocritica de Artemidoro de Daldis
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Este artigo tem caráter informativo e educativo. O conteúdo não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento profissional.
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